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Reciclados: desafios e oportunidades

02/07/2018

Apenas uma em cada quatro pessoas separa lixo no Brasil. Os dados de uma pesquisa Ibope feita por encomenda pela cervejaria Ambev, na última semana de maio passado, confirmam que ou sabemos muito pouco ou praticamos quase nada de separação correta em termos de reciclagem no Brasil. Todos os Estados foram pesquisados.

Mas e a política pública de coleta, separação e destino final dos materiais reciclados? Na região de Bauru, assim como em praticamente todo o Interior do Estado de São Paulo, o volume do lixo reciclável alcançado pelas ações do poder público é muito pequeno diante do que se produz nas casas.

No último dia 23, representantes de 16 cidades que integram as 26 representações no segmento, no Centro Paulista, se reuniram em auditório da Universidade do Sagrado Coração (USC) para discutir este assunto. Cooperativas e associações participaram do 52º Encontro de Catadores de Materiais Recicláveis do Comitê Oeste Paulista, o que inclui a região de Bauru, na porção central.

Na pauta da agenda, a contextualização do cenário das cooperativas de Bauru, o momento da Rede e o cenário do setor no Estado, os desafios da reciclagem, a organização e participação das cooperativas no âmbito ambiental do município e o lixo como emprego e renda.

Os organizadores ainda discutiram a formação de editais e os prós e contras da realização de Parcerias-Público-Privadas (PPP) por prefeituras no setor.

Entre os obstáculos dos grupos no segmento estão a incipiente capacidade de organização das cooperativas, em sua maioria, pouca formação em gestão capaz de ancorar projetos que garantam assumir demandas em volume, área de abrangência e produtividade e a competição injusta com grandes empresas que atuam no setor.

Entre as temáticas estratégias, a vontade de cooperativas pela formação de associações capazes de assumir os serviços municipais por completo na reciclagem, da coleta à venda da mercadoria triada, e dúvidas em relação ao formato e a participação do setor em modelos de concessões e PPPs previstos para inúmeras prefeituras, como Bauru.

Entre estudiosos do tema, há divergências sobre as saídas para garantir ampliação da coleta seletiva de fato, educação ambiental e destino final do lixo adequado. Para uma corrente, a alternativa de repassar a coleta e barracões para as cooperativas gera despesas de custeio e manutenção que podem não ser suportados no tempo, como a renovação da frota, equipamentos, barracões e encargos com mão de obra. Para outra vertente, o poder público tem oportunidade de fazer amplo programa de inclusão social, trabalho e renda, com capacitação de cooperados, e o pagamento por serviços, na ponta, mais baratos do que as estruturas públicas atuais, ou vinculadas a contratos com o setor privado.   

Referência de 280 toneladas/mês

A coleta seletiva domiciliar urbana em Ourinhos (SP) dá “banho” de exemplo reciclável em cidades bem maiores, como Bauru. Implantada de fato em praticamente todas as casas naquela cidade, o volume coletado, a estrutura, a gestão e o modelo de separação dos materiais explica, por si só, a diferença entre “área de cobertura física” e área de coleta efetiva.

Ourinhos, com 112 mil habitantes, coleta via cooperativa de catadores 280 toneladas mês de materiais. Bauru, com seus 372 mil cidadãos, recolhe 210 mil toneladas mês para três cooperativas. Para a coordenadora da Coopeco, Gisele Moretti, uma das organizadas em Bauru, os números mostram como “é caro o serviço pago pelo bauruenses através da Emdurb, pois mostram a ineficiência e o erro em um contrato que paga por área de cobertura e tarefa, o que não garante o recolhimento em muitas casas”.

A coleta seletiva de lixo domiciliar urbano foi mencionada como modelo, em todo o País, no encontro do segmento no sábado do dia 23 de junho, último, no auditório da USC em Bauru.

Para o superintendente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Ricardo Gomes, a capacitação e preparação da gestão da cooperativa fez a diferença. “Em Ourinhos houve preparação planejada da capacidade da cooperativa de assumir a coleta seletiva. E o poder público foi decisivo, porque escolheu o modelo que incentiva os catadores. Há incentivo, há pagamento pelo serviço prestado diretamente à cooperativa, contrato com obrigação, habilitação da cooperativa e, com isso, abriram-se as portas para o acesso a recebimento de equipamentos e estrutura”, conta.

Em Ourinhos, o programa é subsidiado, com participação da administração (SAE) junto à Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (Recicla Ourinhos). A SAE disponibilizou caminhões, barracões, refeitório e sanitários adaptados. A Recicla Ourinhos executa o serviço de separação de material reciclável junto ao lixo domiciliar que chega diariamente ao aterro controlado e utiliza a antiga usina de reciclagem de lixo como ponto de separação, prensagem, armazenagem e comercialização do material reciclável recolhido. Em 2015, a Prefeitura de Ourinhos, a SAE e a Recicla Ourinhos lançaram a campanha "Coleta Seletiva Solidária - Reduza, Reutilize, Recicle".

Nacional
Os cooperados da usina de reciclagem de Ourinhos foram premiados no “Pró-catador”, do governo federal, concorrendo com outros 64 municípios. Matilde Ramos da Silva, uma das coordenadoras do grupo, lembra que o trabalho exigiu etapas. “Foi uma luta de anos seguidos. Ficamos vários anos trabalhando dentro do lixão. Nos organizamos e mostramos capacidade e que aqui estão trabalhadores”, disse.

Um dos “segredos” do êxito no programa é que os catadores gerenciam toda a cadeia. O grupo se divide e passa pelos bairros da cidade fazendo o recolhimento do material casa a casa. “A gente trabalhou duro para se aproximar do morador. Porque se não cercamos tudo o que é melhor vai para outras pessoas. E os moradores nos receberam bem. Para a Prefeitura também é bom, porque quanto mais eficiente for nossa coleta mais resultado dá o serviço”, conta Cláudia da Silva, há 17 anos atuando na cidade.

Depois de recolhido pelos próprios cooperados, o material segue de caminhão para o centro de triagem. Na usina de reciclagem todo o lixo é processado. Primeiro, os materiais passaram pela esteira. Depois, há a separação por tipo: plástico, vidro, papel e papelão.

Após esse processo, os cooperados atuam na etapa de “valor agregado”. “O papelão solto tem valor de mercado bem mais baixo do que o prensado. Com a prensa, nós conseguimos faturar muito mais”, comenta. São mais de 250 quilos de material compactado por dia, em cinco máquinas.

Estrutura e contrato de serviço

A “Recicla Ourinhos” se organizou e no espaço cedido pela Prefeitura, onde há balança para pesar os caminhões com material. Os cooperados construíram refeitório próprio.

Cláudia da Silva, lembra que a instalação aconteceu em uma antiga usina de lixo. “Tem dois barracões instalados pela Prefeitura e concessão do espaço por 30 anos. A cooperativa coleta 100% da cidade. Temos dois caminhões cedidos pela Prefeitura, com
motorista, e cinco caminhões da cooperativa, com motorista nosso. Coletamos 280 ton/mês. São 40% de papelão, 30% de plástico, alumínio uns 17%, 3% de vidro. O rejeito da reciclagem estocamos”, conta. Segundo Silva, 130 pessoas estão envolvidas.

“Dividimos a renda de tudo por produção e horas trabalhadas. A renda média é de R$ 1.350,00. Recolhemos INSS, seguro de vida e a gestão é com diretoria e conselho fiscal”, elenca a cooperada. Ricardo Gomes, da Funasa, conta que o credenciamento da Recicla Ourinhos permitiu acesso a equipamentos, com dinheiro federal.

“Os investimentos na estruturação da cooperativa acumulam em torno de R$ 600 mil nos últimos anos, com esteira, caminhão, prensa. Também tem empilhadeira que hoje é R$ 60 mil. O dinheiro é repassado direto pela União. O município entra com a estrutura local, barracão. Há recursos para isso, mas precisa se organizar, habilitar e ter projeto. Falta de projeto hoje é o principal problema”, afirma Gomes.

JCNet