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Terra Livre: assim são as cooperativas do MST

20/03/2019

Luís Clóvis Schons ainda recorda da madrugada fria e chuvosa em que foi despejado do primeiro acampamento, em 1986. Tinha, à época, apenas 13 anos. O pai, um agricultor que tentava fugir da indigência, engrossava o exército de miseráveis que buscavam um pedaço da terra para sobreviver. “Os policiais chegaram batendo. Não importava se havia crianças, mulheres ou velhos. Destruíram as lonas, pegaram nossos pertences e jogaram à beira da estrada. Foram três dias de violência.” Os líderes acabaram marcados na perna com ponta de baioneta. “Meu pai ainda tem a cicatriz.”

A tática da Polícia Militar foi separar as famílias. “Eles dividiam as mulheres, homens e crianças em locais diferentes. Assim, ninguém fugia, pois cada um precisava encontrar seus parentes.” Jogados na carroceria de um caminhão e despejados em plena madrugada na praça central de Chopinzinho, no sudoeste do Paraná, o único abrigo disponível foi a igreja. “Lembro que o padre trouxe alguns sacos para servir de cobertor. Fazia muito frio e nós, encharcados pela chuva, sobrevivemos daquele jeito.”

Aos 45 anos, casado, três filhos, Schons é proprietário de 10 hectares de terra no Assentamento Contestado, no município da Lapa, a cerca de 60 quilômetros de Curitiba. Mora em casa própria, produz verdura, frutas e cria animais. Os 13 anos vividos embaixo de uma lona, à beira das estradas, fazem parte de sua história. “Hoje posso oferecer à minha família casa, comida e segurança. Meus filhos estudam e tenho trabalho. A reforma agrária me tirou da miséria.”

A história de Schons repete-se pelos 3,2 mil hectares, onde 108 famílias vivem há 20 anos completados em fevereiro. O acampamento é um inegável exemplo de sucesso. No ano passado, a Cooperativa Terra Livre, responsável pela comercialização dos produtos, vendeu 270 toneladas de hortaliças, frutas e verduras. “Para 2019, nossa previsão é entregar 8 toneladas por semana”, afirma o ex-presidente da cooperativa e atual assessor técnico de gestão Paulo Cesar Rodrigues Brizola.

Terra sem agrotóxicos

O elo mais importante dessa união é que toda a produção seja agroecológica. “Não abrimos mão desta condição. Aqui não usamos agrotóxicos. Adubamos a terra com compostos orgânicos”, ressalta Brizola. Além da produção agroindustrial, os agricultores dividem máquinas, tratores e equipamentos agrícolas. De toda área, 30% é de reserva natural. Um santuário intocável.

Nestas duas décadas, muita coisa mudou. “Fomos aprendendo com o tempo. A luta e as dificuldades nos ensinaram a sobreviver e crescer”, ensina Carlos Neudi Finhler, velho militante do MST e também assentado. Um moderno posto de atendimento médico está à disposição dos cerca de 800 moradores da comunidade, mas isso não impede que o setor de saúde do movimento adote e incentive o uso de terapias alternativas. A educação é outro motivo de orgulho. Todas as 130 crianças frequentam as escolas. Da Educação Infantil à pós-graduação, o acesso está garantido para todos. “Apenas dois moradores podem ser considerados analfabetos. Por questões cognitivas, não conseguiram aprender”, conta entusiasmada a professora Sandra Mara Maier.

Daí a importância da Escola Latino-Americana de Agroecologia, que também funciona na comunidade. A ideia de implantar um curso especializado nasceu no Fórum Social Mundial de 2005. “Precisávamos transmitir o conhecimento agroecológico aos nossos jovens, filhos de agricultores que foram criados na agricultura tradicional. Nosso objetivo era produzir alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, e foi preciso romper com velhos conceitos”, conta Simone Aparecida Resende, pedagoga e mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná.

A escola oferece dois cursos: tecnologia em Agroecologia e licenciatura em Educação do Campo, com habilitação em Ciências da Natureza. As turmas não são regulares, uma vez que a escola depende de recursos do governo federal. Os treinamentos duram seis meses. Entre uma etapa e outra, os alunos retornam às suas casas para aplicar o que aprenderam. “No período que estão aqui na escola, grupos de três alunos acompanham a produção de famílias assentadas. É uma troca de experiências.”

Deu certo. A reforma agrária tirou Schons e sua família da miséria. Em Contestado, a educação e a cultura também são motivos de orgulho

Desde a fundação da Escola Latino-Americana, 270 estudantes foram graduados. Está prevista uma nova turma para este ano, com 60 alunos. A grande incógnita é saber se o governo Bolsonaro vai liberar a verba já aprovada no orçamento. O custo anual é de 280 mil reais, pouco mais de 4,6 mil por aluno ao ano.

“A gente não quer só comida. A gente quer comida, diversão e arte”, cantarola Ana Claudia dos Santos, 27 anos, professora e integrante do coletivo de cultura do assentamento. O prédio mais bonito do local, recém-restaurado, é o Casarão. Construído em 1836 por escravos, serviu de residência para o Barão dos Campos Gerais, antigo proprietário das terras. Agora foi convertido em um vistoso espaço cultural para apresentações de teatro, cinema, música, dança e exposições de artes plásticas. “A reforma agrária não é apenas dividir lotes. A cultura é uma necessidade para transformação humana. Além de entretenimento, serve como instrumento de mudança, de conhecimento e luta.”

Futuro está indefinido

A grande incógnita é prever o futuro do programa de reforma agrária, inclusive em relação às fontes de financiamento. Já nos primeiros dias do governo Bolsonaro, o Incra anunciou a paralização de todos os processos em análise. O temor é que o Programa Nacional de Alimentação Escolar seja desativado. “Caso isto aconteça, teremos de buscar novos mercados”, diz Brizola.

No movimento desde 1985, Carlos Finhler garante que o MST vai resistir. “Não pela violência, mas por meio do diálogo para uma situação propositiva. O movimento tem longa história e soube superar todas as adversidades. Chegamos até aqui e vamos caminhar ainda mais.”

 

CartaCapital