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Cooperativa é esperança de recomeço para ex-presidiárias

05/03/2020

O sonho de criar uma cooperativa capaz de proporcionar oportunidades de recomeço para mulheres sobreviventes do cárcere já é realidade. A Libertas, com menos de um ano de vida, está lá no Viaduto Pedroso, 111, em São Paulo, dentro do Espaço Cisarte. Idealizada em 2017, é resultado da dedicação de Marcita eGeralda, duas mulheres que viveram experiências similares com a precariedade de nosso Sistema Penitenciário. Ao longo do caminho, outras duas batalhadoras, Bruna Cássia e Audrey Dorta, se uniram ao projeto. A Libertas nasceu em 1º de abril de 2019 e ainda está sendo formalizada como cooperativa. São nove mulheres navegando no mesmo barco – as quatro coordenadoras e cinco egressas - Patrícia, Hortência, Natália, Meg e Cláudia. Grandes árvores nascem de pequenas sementes. A expectativa é fechar 2020 com 20 participantes.

O grande diferencial da Libertas, além de gerar trabalho e renda por meio da costura e fabricação de produtos ecológicos, é ser um centro de amparo e formação para as egressas que a procuram, uma espécie de incubadora de talentos estigmatizados pela sociedade. É o caso da Patrícia Cândido, poeta que já organiza seus “saraus itinerantes de portas abertas” com apoio da cooperativa. É o caso também da moçambicana Hortência Nhacume, aceita como cozinheira emrestaurante parceiro.

Apoio de parceiros e uma campanha de crowdfunding garantiram até agora a manutenção desse sonho. Daqui em diante, aposta-se no aumento da renda vinda da venda de produtos. Mas ainda há necessidades urgentes, como lâmpadas, ventiladores etc. Geralda espera taxas menores para a formalização da cooperativa.Marcita espera que continuem os apoios para cursos de formação nas áreas de ginecologia autônoma, política, costura e crochê, saboaria etc. Libertas é liberdade, é empoderamento, é recomeço para as sobreviventes do cárcere. É obra de amor, movida a amor. Sua ação é vital diante da explosão do encarceramentofeminino. O número de mulheres presas saltou de 5,6 mil em 2000 para 42.355 até junho de 2016 (quase 700%), quando foram coletados os últimos números pelo Infopen. Do total, 36% (15.104) estavam em São Paulo. Assusta saber que 62% das mulheres são presas por crimes ligados ao tráfico de drogas. A Política de Drogas, de 2006, elevou o percentual. As mulheres eram, em 2016, 5,8% das pessoas reclusas no país (726.712).

Um pouco de história

Marcita viveu a questão do encarceramento desde criança, ao entrar em presídio masculino para visitar um parente. Já na adolescência, veio a pergunta:“Será que essas pessoas não escolheriam outro caminho se tivessem outra oportunidade, outra visão, outra perspectiva?” Costureira desde os 13 anos eestilista de formação – é dona da marca Tropical Wear -, Marcita percebeu que poderia fazer alguma coisa. Primeiro conheceu mulheres que dormiam emlongas filas para fazer visitas íntimas aos maridos e muitas mães em visita a filhos. Percebeu lá a cumplicidade e as diferenças entre esses dois mundos: ode dentro e o de fora das prisões.

Depois conheceu presídios femininos e decidiu compartilhar seus conhecimentos com essas mulheres. Com um amigo, tomou consciência da importância do empoderamento das pessoas e também das dificuldades de agir dentro das prisões femininas. Em 2014, foi aconselhada pela amiga, advogada e pequisadora Dina Alves a procurar a Pastoral Carcerária, ligada à Igreja Católica, a mesma que havia aberto portas para Dina entrevistar presas e construir sua tese “Rés Negras, Judiciário Branco”. Marcita preparou o projeto de ação e na Pastoral Carcerária, em maio de 2017, foi encaminhada a Geralda Ávila, responsável por atividades humanitárias em presídios femininos.

Os ideais de Marcita e Geralda se fundiram num abraço. Geralda, 64 anos, também conheceu o Sistema Penitenciário a partir de um caso de prisão na família, que a levou a militar na Pastoral Carcerária. São essas duas mulheres que idealizaram a Libertas e estão hoje à frente da cooperativa, ao lado de Bruna e Audrey.

O projeto inicial de Marcita, em 2014, foi batizado de “Oficina de Vulvas”. Chocante? Não. Visava levar às presas conceitos de autonomia e autoconhecimento de forma lúdica, por meio de uma oficina de costura no Centro de Progressão da Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo. No entanto, dificuldades legais para criação de uma cooperativa dentro do Centro impediram a multiplicação dessa oficina. Só foi permitida a fabricação manual de calcinhas para uso próprio. Até a Pastoral Carcerária, em decorrência de rebeliões, sofreu restrição a suas atividades em 2016. As limitações forçaram a busca de solução externa para a criação da sonhada cooperativa.

O drama das egressas

Marcita e Geralda sabem o quanto as egressas ou sobreviventes do cárcere, como fazem questão de chamar as ex-presidiárias, são estigmatizadas ao procurar um emprego ou um serviço de doméstica. “Tem passagem?” é a primeira pergunta ouvida. E elas, em sua maioria, enfrentam enormes carências, sem um lar, sem dinheiro para se alimentar, pagar uma moradia digna e muito menos para regularizar seus documentos e quitar a multa que na sentença de condenação, lá atrás, lhes foi imposta pelo juiz, de acordo com a LEP (Lei de Execução Penal). Essa inadimplência absurda lhes tira o status de cidadãs e os direitos políticos, asmantêm inscritas na dívida ativa, as impede de ter CPF, comprar um imóvel, fazer negócios etc. Não podem prestar concursos públicos. São muitas as que são obrigadas a morar nas ruas. Ressocialização, nesses casos, vira palavra “estúpida” para elas. “É preciso ressocializar nossas elites”, diz Marcita.

O nascimento

E foi para essas mulheres que buscam apoio para recomeçar suas vidas e quiçá voltar a sonhar que, depois de muita luta e de um 2018 de tropeços e insucessos, nasceu em 1º de abril de 2019 a Libertas. Ainda está em processo de formalização, mas avança, com a ativa e apaixonada participação da Bruna Cássia e da Audrey Dorta. Formada em tecnologia têxtil, Bruna é orientadora em ginecologia autônoma, de forma mais natural, com conhecimento dos ciclos lunares e do uso da fitoterapia. A partir de seus conhecimentos de têxteis surgiu a ideia de lançar o principal dos quatro produtos (veja boxe) comercializados pela cooperativa: o absorvente ecológico reutilizável, em algodão orgânico, unindo autoconhecimento e tecnologia. É responsável pelo treinamento das cooperadas. Audrey conheceu a Libertas em agosto passado, pela plataforma de financiamento coletivo Catarse, durante estudo para seu curso de graduação em Serviço Social. Foi paixão à primeira vista. Com larga experiência em administração de confecções, virou administradora financeira e responsável hoje pela comercialização dos produtos pela internet.

Os parceiros

Tudo isso, no entanto, teria sido apenas um sonho sem o apoio e a ajuda de importantes parceiros. Marcita cita seis, entre outros: a empresa Pano Social,que emprega egressos e produz camisetas e outras peças de vestuário com tecidos de algodão orgânico. Foi responsável pela doação de grande quantidade desse tecido, permitindo o início da produção em 1º de abril (dia em que Marcita comemorou seus 43 anos); Logo depois, Geralda fechou parceria para instalar aLibertas no Espaço Cisarte (veja boxe); a associação Design Possível, que utiliza o design para apoiar com novas formas de produção e interface com omercado iniciativas ligadas à economia solidária. Foi procurada por sugestão de uma irmã de Marcita, a Verônica. A ONG já era responsável pelo design daRede de Costura Solidária de São Paulo. Tinha ampla experiência no apoio e formatação de cooperativas. Marcita foi lá e apresentou a Libertas à gestoraAlice. Levou sorte. Ela estava concluindo um projeto patrocinado pela Fundação Banco do Brasil, de apoio a um grupo de 15 cooperativas. Faltava apenas uma. ALibertas embarcou na última hora como cooperativa incubada, com direito a um curso gratuito de 8 meses, ao recebimento de maquinário emprestado, móveis e a 11 meses de acompanhamento. Findo o prazo e aprovada, a Libertas vai receber a doação definitiva de 10 máquinas de costura. Verônica foi também responsável pela criação do logo oficial da Libertas – um dente de leão como símbolo de liberdade; a loja Armarinhos 25, que doou aviamentos; a plataforma Catarse, que promoveu a campanha de financiamento coletivo (crowdfunding), idealizada por outra amiga, a Flora. A meta era arrecadar R$ 22.701 para tocar a operação, incluindo, de modo especial, o custo do transporte das cooperadas e compra de materiais. Um vídeo sobre a Libertas, de ótima qualidade, impulsionou a campanha. Doações de 316 pessoas somaram R$ 28.396. Grande parte dos doadores recebeu recompensas em produtos feitos pelas cooperadas, numa espécie de venda antecipada feita pela Libertas; e a Unifai – alunos do Curso de Pós-Graduação em Políticas Públicas produziram bem-acabado portfólio de divulgação para a cooperativa, com números sobre o Sistema Penitenciário Feminino e perfil das mulheres encarceradas, informações gerais e planejamento de ações e atividades etc.

Produtos aliam sustentabilidade e empoderamento

A linha de produtos é ecológica e sustentável e voltada ao empoderamento da mulher. Obedece aos princípios de sobrevivência humana e preservação do planeta. As vendas são feitas pela internet (o site está em fase final de construção) ou de forma direta para amigas. São hoje quatro produtos: 

Absorvente ecológico – kit com três unidades. Feito com algodão orgânico, é impermeável e lavável. Pode durar de 5 a 7 anos. É mais saudável que os absorventes industrializados. Estudos indicam que a mulher consume até 1 tonelada em absorventes industrializados durante a vida.

Eco Pads – Discos de algodão orgânico para limpeza do rosto, laváveis e reutilizáveis. 

Saquinhos para embalagem de grãos – Em dois tamanhos, reutilizáves e orgânicos, substituem sacos plásticos no transporte de arroz, feijão e outros vendidos a granel. Apresentados à zona cerealista de São Paulo, têm grande demanda. 

Sabonetes medicinais veganos – Lançados em janeiro, em kit com quatro unidades. ]

Os produtos podem ser adquiridos pela internet – e-mail; Facebook; Instagram; e site. E aos poucos serão também disponibilizados em lojas de economia solidária.

Email: cooperativalibertas@gmail.com

Facebook: @cooperativalibertas

Instagram: @cooperativalibertas

Site: cooperativalibertas.com.br

Mesmos ideais levam a sede ao espaço Cisarte

O mesmo sonho de estar a serviço de quem mais precisa facilitou a parceria da Libertas com o espaço Cisarte (Centro de Inclusão Social pela Arte, Cultura, Trabalho e Educação), que funciona em ampla área construída como andar debaixo do Viaduto Pedroso, sobre a av. 23 de Maio. O acesso é por uma tosca e pequena escada que sai do meio do viaduto. Ao descer, lá está uma sala imensa, simples, mas bem iluminada, com marcas de amor por todos os cantos. Luciene Inácio, administradora do espaço, relata como é feito o atendimento aos moradores de rua que lá chegam e logo mostra a sala de cerca de 100m2 ocupada pela Libertas. O Cisarte foi inaugurado em 27/10/2016. 

É presidido por Darcy da Silva Costa - também coordenador nacional do MNPR (Movimento Nacional da População de Rua) - com o apoio da Prefeitura de SãoPaulo e da Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (UNISOL Brasil). É um espaço de inclusão, em que pessoas em situação de vulnerabilidade social (40% dos moradores de rua são egressos) são abraçadas e podem aprender e aprimorar seus conhecimentos relacionados à arte, cultura, geração de trabalho e renda, educação, empregabilidade e assistência social.

A opinião do vereador paulistano Paulo Frange (PTB)

“Cooperativismo é poderosa ferramenta de inclusão social”

“O cooperativismo é uma poderosa ferramenta de inclusão social. Lamentavelmente, pouco compreendida, mas de sucessoquando em mãos habilitadas.

O cooperativismo rural e o cooperativismo na saúde já mostraram ao país a capacidade da geração de emprego e renda, bem como, a participação no PIB brasileiro.

Quando tratamos de pessoas fora do mercado de trabalho, em especial ex- presidiárias, não podemos esconder as dificuldades que enfrentarão.

O Poder Público, numa cidade como São Paulo, tem muito a contribuir, principalmente na contratação de cooperativas capazes de produzir aquilo de que o município é comprador de grandes empresas, boa parte delas fora da cidade.

Por exemplo, temos mais de 1 milhão de crianças na Rede de Ensino Infantil no município. Compramos uniformes escolares de gigantes do ramo. Será que a organização de cooperativas de mulheres distribuídas em toda a cidade, com treinamento e organização, não seria capaz de gerar emprego e renda em toda periferia da capital, bem como permitir a inclusão dessas ex-presidiárias nessas cooperativas? Esse é apenas um exemplo.

O Poder Público tem que trazer para si o cooperativismo, como parceiro. O que temos visto é que a cada dia tem mantido as cooperativas mais distantes, sem contar que as tributa em 5% de ISS sobre a Receita Bruta. Isso é inadmissível e temos tratado desse assunto com a Fetrabras, para que possamos fazer justiça com as cooperativas de trabalho.”

Redação EasyCOOP