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A vida dentro de uma cooperativa de catadores de lata de Nova York

14/01/2020

Desde 1982, o estado de de Nova York tem uma lei que obriga fabricantes de bebidas a pagar 5 centavos de dólar (cerca de R$ 0,20) para cada lata ou garrafa devolvida para reciclagem, mas em geral poucos resíduos fazem o caminho de volta.

Os créditos que não são utilizados na devolução ficam depositados e, depois de um ano, são destinados aos cofres públicos. Com isso, se tornaram um importante ativo no mercado de reciclagem, com retorno de cerca de US$ 100 milhões (cerca de R$ 400 milhões) para o estado.

Nesse contexto, iniciativas como cooperativas de cataodres acabam ganhando espaço no mercado novaiorquino. É o caso da entidade coordenada pela espanhola Ana Martínez de Luco, no Brooklyn.

"Por isso acabei me juntando a esse grupo que pegava latas. Ser parte dessa comunidade foi o que me trouxe até aqui", disse Martínez de Luco à Efe. Atualmente, ela comanda uma fábrica de reciclagem de latas e garrafas no coração de Bushwick, um bairro do Brooklyn, com a ajuda de cerca de 750 catadores.

O nome "Sure We Can" faz um jogo de palavras com a frase "claro que podemos" e a palavra "lata" ("can", em inglês), nasceu com a constatação de que havia um grande número de resíduos que, principalmente em Manhattan, as pessoas não se preocupavam em devolver aos estabelecimentos.

"Havia muita coisa para recolher", ressalta Ana, que afirma que, depois de fazer um cálculo aproximado usando o número de pessoas que trabalham em outros centros parecidos, é provável que em Nova York "pelo menos" 10 mil pessoas se dediquem a recolher latas e garrafas. "Fizemos a proposta de elaborar um censo em 2020 para termos dados mais concretos", conta ela.

Sentimento de pertencimento

 

No entanto, a parte mais importante do projeto além da reciclagem, é proporcionar uma comunidade a muitas pessoas em situação de abandono. Ana explica que o perfil dos catadores é muito diversificado, mesmo que muitos tenham pontos em comum.

"Alguns recolhem muito esporadicamente, outros todos os dias. A grande maioria é de migrantes, cerca de 90% deles. E geralmente são pessoas bem mais velhas, muitos acima dos 60, 70, 80 ou até 90 anos", destaca.

A maior parte dos catadores que trabalham no centro de Bushwick chegaram aos EUA já adultos, não aprenderam o inglês ou não tiveram possibilidades de se integrar ou ter um trabalho "além dos mais esporádicos ou instáveis".

"Várias outras pessoas saíram da prisão e não encontram emprego ou outra maneira de viver. Também há outros que sofreram problemas de alcoolismo ou vício em drogas e não têm condições de encontrar e manter um trabalho. Assim como pessoas que têm algum tipo de instabilidade emocional ou mental e vivem mais isolados", acrescenta.

Acima de tudo, ela conta, vir à fábrica permite que os catadores tenham acesso a uma comunidade onde "ninguém olha feio para eles, ninguém zomba deles e onde todos os tratam com respeito, perguntam seus nomes e se relacionam. Há uma parte humana e social que é muito importante".

Para onde vão as latas?

"O processo se chama redenção. E tudo começa quando alguém compra uma garrafa ou lata", detalha a espanhola. Segundo ela, logo que acontece a venda é cobrada uma taxa de 5 centavos de dólar sobre o preço de venda, que é paga pelo distribuidor do produto.

Quando a pessoa volta com as latas, a "Sure We Can" é obrigada a pagar esses 5 centavos. Depois, a empresa que engarrafou o produto paga à fábrica cerca de 3,5 centavos de dólar (cerca de R$ 0,14) pela separação e devolução das embalagens.

"Esses 3,5 centavos nos sustentam de forma regular, mas não muito bem", conta a espanhola. Ela ainda destaca que a fábrica recebe "muito pouca" ajuda da cidade e que as doações de fundações e indivíduos normalmente são destinadas a outras ações em benefício da comunidade, como formação de lidernaças, programas de compostagem ou educacionais.

Atualmente, Ana Martínez de Luco e a Sure We Can tentam pressionar os legisladores a mudar a lei que estabelece o valor da devolução para latas e garrafas.

"Estamos trabalhando para mudar a lei para um projeto nosso, que estabelece que em vez de 5 centavos por embalagem o retorno seja de 10 centavos e que em vez de 3,5 pela separação e devolução sejam 5 centavos porque tudo subiu muito, os salários, os alugueis", detalha ela.

Enquanto lutam para sobreviver um pouco melhor, a vida nesta fábrica em Bushwick, que funciona com um forte sotaque espanhol e um pouco de chinês, continua com o trabalho frenético de seus catadores, que entre garrafas e latas conseguem um tempo para falar de música e da vida em geral, rodeados por montanhas de embalagens que logo poderão ter uma segunda vida.

 

 

Do R7, com EFE