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Série Princípios do Cooperativismo: qual o significado de adesão voluntária e livre?

23/02/2026

Em 2026, o coop brasileiro quer se aprofundar em um assunto que despontou como o principal desafio de gestão das cooperativas, de acordo com uma pesquisa de opinião realizada com lideranças do setor em 2023: o fortalecimento da cultura cooperativista. O estudo revelou que 56% dos dirigentes de cooperativas e Organizações Estaduais temem que suas instituições se afastem do que torna o nosso modelo de negócios único: os valores e princípios cooperativistas. 

Como resultado desse diagnóstico, o 15º Congresso Brasileiro do Cooperativismo (CBC) incluiu a temática de cultura entre suas diretrizes estratégicas, e definiu duas delas como prioritárias: difundir o cooperativismo na educação formal brasileira em todos os níveis, por meio de parcerias com a escolas, universidades e órgãos educacionais; e promover a formação das lideranças cooperativistas para fortalecer o seu papel como promotoras e multiplicadoras da cultura cooperativista dentro de suas organizações e no movimento. 

Dando continuidade a esse processo, o Sistema OCB está realizando, neste momento, uma pesquisa nacional sobre o assunto, da qual você pode participar voluntariamente, online, preenchendo um formulário. E para ajudar a ampliar o entendimento da base sobre a importância de conhecer e divulgar a cultura cooperativista, a revista Saber Cooperar fará uma série especial sobre cada um dos 7 princípios do cooperativismo. Vamos começar destrinchando o primeiro deles: a Adesão Livre e Voluntária, instituída para garantir que toda cooperativa seja um espaço aberto à comunidade, democrático e independente.

De forma bem resumida, com base em informações da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), esse princípio prevê que todas as pessoas – independentemente de raça, religião, classe social ou gênero – podem se associar a uma cooperativa, desde que esta seja a sua vontade. Na prática, significa dizer que ninguém é obrigado a participar de uma coop, tampouco deve ser impedido de nela ingressar. 

“O objetivo central deste princípio consiste em garantir que a cooperativa seja uma organização de pessoas e não um clube fechado ou um instrumento de apropriação privada”, explica o coordenador do Centro de Referência em Empreendedorismo e Cooperativismo para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Alair Freitas.

Segundo o pesquisador, que há quase duas décadas se dedica ao estudo do cooperativismo, a adesão livre e voluntária funciona como um “filtro institucional”, que protege a cooperativa tanto do fechamento corporativo quanto da adesão oportunista de pessoas que só pensam em benefícios imediatos. Justamente por isso, antes de ingressar por livre e espontânea vontade na cooperativa, os interessados devem ser informados dos seus direitos, deveres e corresponsabilidades — que incluem contribuir ativamente para os resultados do grupo, participar das decisões do negócio e seguir os valores e princípios cooperativistas.

Contexto histórico

Os princípios do cooperativismo nasceram a partir da fundação da Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale, na Inglaterra, em 1844, durante a Revolução Industrial, em um cenário de condições de trabalho exploratórias, mal remuneradas e com cargas horárias extenuantes.

“A livre admissão surgiu como ruptura explícita com as formas associativas vigentes à época, muitas delas fechadas, corporativas ou baseadas em privilégios de classe, profissão ou origem”, explica Freitas. “Ao afirmar que qualquer pessoa poderia aderir, desde que aceitasse as regras comuns e participasse de forma responsável, o movimento cooperativo se posicionou como alternativa democrática às estruturas econômicas excludentes do capitalismo industrial nascente.”

O pesquisador da UFV ressalta que a adesão livre e voluntária estabelece o perímetro social da cooperativa e delimita sua natureza enquanto associação de pessoas, e não de capitais. Este princípio mostra que se associar a uma coop é um ato de livre vontade que tem como base a união espontânea para o desenvolvimento econômico de cada cooperado.

Bem-comum 

O princípio da adesão livre e voluntária é praticado por todas as cooperativas brasileiras. Entre elas, a C.Vale, do Paraná, têm bons exemplos de como essa diretriz é aplicada na prática. “Esse princípio é o pilar do nosso modelo de negócios, porque dele dependem todos os demais”, explica a gerente da Assessoria de Qualidade e Comunicação da cooperativa, Mirna Klein Furio. “Sem se associar, não é possível votar, receber treinamentos, participar de eventos e ter acesso a sobras, por exemplo”. 

Mirna destaca que as portas da C.Vale estão sempre abertas para o produtor que deseja cooperar para crescer, independentemente de sua renda, do porte de sua propriedade ou de sua relevância para a comunidade. “Uma pessoa de renda mais baixa ou que exerça atividades mais simples tem o mesmo direito de se associar que uma figura ilustre ou de alta renda”, detalhou.

Como parte da estratégia de fortalecimento das bases cooperativistas, a cooperativa paranaense promove treinamentos e eventos de aperfeiçoamento sobre os sete princípios, além dos deveres e das responsabilidades dos cooperados. “Também realizamos dias de campo, seminários, cursos de formação pessoal e profissional, ações beneficentes, de conscientização ambiental e uso racional de recursos naturais. E tudo isso tem relação direta com a nossa forma diferente de pensar e de fazer negócios”, completa a gestora. 

A C.Vale também atua fortemente na formação de futuras gerações, em  programas como o Cooperjúnior e o Cooperjovem, nos quais estudantes e filhos de associados são orientados sobre os princípios e benefícios do cooperativismo. O objetivo é envolver a juventude em programas para estimular o desenvolvimento das noções de cooperativismo e da importância da sucessão familiar, iniciativas que perpetuam a vocação e o gosto pelo cooperativismo. E nesse contexto, é sempre importante destacar para eles que o cooperativismo é uma escolha, não uma obrigação — justamente o primeiro princípio da nossa série de reportagens especiais. 

Mirna também destaca que os princípios do movimento ajudam a garantir que as cooperativas sigam padrões éticos e de conduta semelhantes não apenas no Brasil, mas no mundo. E assim como a cultura de um povo ajuda a moldar a maneira como uma população se comporta e enxerga a realidade, a cultura cooperativista serve como um norte para quem atua no nosso nosso modelo de negócios.

O professor Alair Ferreira concorda e acrescenta: para o cooperado, os sete princípios do cooperativismo funcionam como referência prática de pertencimento e participação. Por isso, devem ser instrumentos para fortalecer o protagonismo dos associados, reduzir assimetrias internas e contribuir para tornar as cooperativas mais transparentes, consistentes e sustentáveis ao longo do tempo.

“Cooperativas que desejam fortalecer a cultura cooperativista precisam tratar a educação como estratégia permanente, e não como ação episódica. Isso envolve investir em processos formativos continuados, articulados ao cotidiano da cooperativa, conectando princípios, gestão, mercado e realidade dos cooperados”, conclui.

Saiba mais sobre os princípios cooperativistas nos cursos disponíveis na plataforma CapacitaCoop e na websérie Bora Entender.

Sistema OCB

 

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